Iniciativa de empoderamento promove autoconhecimento, maturidade, poder de fala e protagonismo para pessoas com T21 (síndrome de Down).
Andrei Talison
Balneário Camboriú
A busca por autonomia e protagonismo é um direito fundamental de todo ser humano. Para as pessoas com T21 e outras deficiências, esse caminho ganha um nome poderoso e transformador: Autodefensoria (ou Self-Advocacy). Mais do que um conceito, é um movimento que tem reescrito as dinâmicas familiares e sociais, promovendo maturidade, poder de fala e, acima de tudo, o exercício pleno da cidadania.
Na Amor pra Down, a Autodefensoria não é apenas um projeto, mas um alicerce de empoderamento. O grupo local de autodefensoria da associação, que iniciou seus encontros presenciais em 14 de março de 2025 e desde então, é um espaço vital onde os associados aprendem a conhecer e defender seus direitos.
O que é Autodefensoria? Uma Explicação Didática para Pais
Para muitos pais e familiares, o termo “Autodefensoria” pode parecer complexo ou até mesmo assustador, pois desafia a tendência natural de superproteção. No entanto, o conceito é simples e profundamente libertador.
A Autodefensoria é a capacidade de uma pessoa falar por si mesma, defender seus próprios direitos, tomar decisões sobre sua vida e assumir o controle de seu futuro. No contexto da promoção da igualdade e inclusão, é o movimento que capacita o indivíduo a:
- Conhecer seus direitos e responsabilidades.
- Comunicar suas necessidades, desejos e escolhas de forma clara.
- Participar ativamente nas decisões que a afetam (escolha de carreira, moradia, lazer, etc.).
- Lutar contra o preconceito e a discriminação.
Como ressalta a psicóloga Simone Gomes Cordeiro, irmã de uma autodefensora exemplar, o trabalho vai além da T21:
“O grupo de autodefensores é para que eles possam conhecer os seus direitos e defendê-los. Ajudar as pessoas que não conhecem também a defendê-las. Não é um trabalho só para associados: é um trabalho de inclusão para todas as pessoas com deficiência que, amadurece, traz autonomia e que traz poder de fala.”
Stephanie Krubinik: Autodefensora Local em Itajaí e Diretora da Autodefensoria Região Sul
A trajetória de Stephanie Krubinik, associada da Amor pra Down e irmã de Simone, é um testemunho vivo do poder da Autodefensoria. Aos 30 anos, Stephanie é um exemplo de maturidade e autonomia, com uma atuação que transcende o âmbito local.
“A Stephanie, ela está na Autodefensoria há mais de cinco anos,” conta Simone. Sua dedicação a levou a ser diretora de autodefensores na Regional Sul e a participar do curso de Advocacy (também conhecido como Self-Advocacy), mediado pela Federação Brasileira das Associações de síndrome de Down (FBASD). Este é o nível mais alto de capacitação sobre como defender os próprios direitos.
O reconhecimento de seu trabalho é notável: “Em 2025 ela foi para a ONU representar o Brasil junto com a associação, foi a maior comitiva do Brasil para discutir os direitos das pessoas com T21. Então, a visibilidade desse trabalho é um trabalho incrível, que não tem fim e que todas as pessoas com deficiência deveriam participar”.

Imagem: Stephanie Krubinik e Simone Gomes Cordeiro
Os Impactos Transformadores no Ambiente Familiar
A Autodefensoria não beneficia apenas o associado; ela reorganiza e amadurece toda a dinâmica familiar. O depoimento de Simone é claro sobre os benefícios e o que mudou no ambiente familiar e nas tomadas de decisão:

A participação na Autodefensoria ensina os pais a fazerem a transição de cuidadores para apoiadores, garantindo que o direito à autodeterminação seja respeitado.
No entanto, essa transição ideal esbarra em uma realidade complexa. Giovana, coordenadora e mediadora dos encontros de autodefensoria, aponta que a resistência à participação muitas vezes reside dentro do próprio núcleo familiar, onde o amor se confunde com a limitação:
“A autodefensoria é a chave para o empoderamento, mas a porta para essa jornada, muitas vezes, está trancada pelo capacitismo familiar. Vemos jovens brilhantes que hesitam em participar, não por falta de capacidade, mas porque foram criados sob a sombra da superproteção, tratados como ‘bebês’ por pais que, sem perceber, ‘roubam’ o protagonismo da história dos próprios filhos.” Giovana de Oliveira – Coordenadora técnica da Amor pra Down.
Autonomia e Qualidade de Vida
A importância da Autodefensoria é amplamente sustentada por estudos científicos. O conceito de Self-Advocacy está intrinsecamente ligado à Qualidade de Vida e ao Comportamento Adaptativo de Pessoas com Deficiência Intelectual.
Pesquisas indicam que o exercício da Autodefensoria e o empoderamento (ou empowerment) são cruciais para a inclusão social e para a construção de uma identidade positiva. O movimento desafia a visão de que a deficiência é uma limitação puramente individual, focando na interação da pessoa com o ambiente social e nas barreiras que precisam ser removidas.
Ao participar de grupos e iniciativas como o da Amor pra Down, os associados não apenas aprendem a defender seus direitos, mas também a construir uma autoestima elevada e a desenvolver a capacidade de enfrentar adversidades, elementos essenciais para uma vida plena.
A Autodefensoria é, portanto, a chave para que as Pessoas com Deficiência se tornem protagonistas de suas próprias histórias. É um movimento que transforma pessoas, instituições e fortalece o caminho para uma sociedade mais justa e inclusiva.
